As Aventuras de Raio de Sol
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As Aventuras de Raio de Sol

Leitura gratuita · Mateus Barbosa

Raio de Sol e Juca
Volume 1

A REGIÃO

Há milhares de anos, era ainda mais bonito.

A região era vasta em uma natureza repleta de bosques frutíferos, recanto para pequenos animais, muitas flores e paisagens de tirar o fôlego. Montanhas muito altas cercavam tudo, e no inverno, elas recebiam cobertura de neve, deixando-as ainda mais charmosas. As pessoas trabalhavam menos, e acabavam tendo mais tempo para contemplar a riqueza que era proporcionada aos seus olhos.

Na fundação do Condado, os primeiros habitantes logo viram a necessidade de construir pontes para facilitar o acesso e começaram a surgir as primeiras ruas com pedras gigantes e planas, fazendo um belo tapete de rotas entre os casebres e as primeiras vendas instaladas por ali.

Com o passar dos anos, musgo salpicava os pavimentos e rochas das primeiras construções, mostrando sinais de um lugar que já começava a ter uma história.

A região era provida de fartura e isso gerava esperança e bom humor a quem ali se instalava. O trabalho diário era duro, mas resultava em uma manutenção do que havia sido feito e ampliações para novas estruturas. A recompensa era um local de famílias que viviam em harmonia, respeitando-se e criando vínculos de amizades.

Não demorou muito, e as pessoas começaram a organizar celebrações, datas festivas e para os acontecimentos marcantes, até mesmo feriados eram criados.

Os antigos moradores contam que bem nos primeiros anos da fundação, o Condado sofreu com uma marcante estação, de um inverno muito severo, onde o alimento ficou escasso e havia dificuldade para manutenção de lavouras e criações. Foi um momento onde as pessoas estavam doentes e perdendo a esperança. Os rios congelaram, o que os impedia de sair dali pelos barcos e o trajeto até uma região próxima para se instalarem era impossível, pelas condições frias e a distância a ser percorrida no gelo até uma nova área com esperanças de prosperar. Sentiam-se em uma armadilha cruel que não havia data prevista para acabar. Não se via mais animais, não havia frutos.

Certa manhã, um dos moradores viu de sua janela uma bela ave: um pavão de cauda multicolorida, esbanjando elegância e saúde. Era impossível. De onde ele poderia ter vindo? Como sobreviveu a tudo isso? Intrigado, o morador o seguiu sem que sua presença o espantasse, e foi conduzido à um pequenino bosque, que havia frutas que sobreviviam ao rigoroso inverno, e pequenos animais estariam conseguindo resistir graças à essa fartura de alimentos. Eram frutas curiosas, diferentes de tudo que ele havia visto, parecendo suculentas laranjas, mas do tamanho de um coco. O alimento era extremamente nutritivo. Sua polpa rendia sucos deliciosos. Seu bagaço podia ser cozinhado ou assado e até mesmo a casca podia ser mastigada como a casca de um jambo. Essa descoberta salvou todas as famílias pelas próximas semanas até que o sol voltasse a trazer a fartura, e desde esse dia, é celebrado a Feira do Pavão no Condado.

Ao sul do Condado, um bosque repleto de flores, abelhas e consequentemente, uma fonte de mel. Havia pedras gigantes muito bonitas e algumas ruínas do que parecia ser um antigo feudo da idade medieval, que fornecia ótimos lugares para crianças brincarem e bancos de pedra para contemplar os dias. As pessoas tinham um costume de falar que iam ao bosque, “catar” algumas flores, e por assim ser, logo o bosque foi apelidado de Bosque do Cata-Flor.

O bosque tinha um papel importante: ele emanava uma energia muito boa, parecendo ser protetora, e as pessoas que ali frequentavam, voltavam para suas casas mais positivas e se sentindo melhor. Se você estivesse doente, o Bosque do Cata-Flor iria melhorar sua saúde se fosse frequentado por alguns dias.

Os mais velhos contam que antigamente, bruxas e boas feiticeiras travavam uma briga interminável. As bruxas queriam dominar a região e eram combatidas a recuar. Em uma batalha cruel, as bruxas ganharam e as feiticeiras que perdiam se desfragmentavam ao vento. Até que restou apenas uma única feiticeira e sabendo que seria impossível ter uma vitória sozinha contra todas elas, se desfragmentou e o vento à espalhou pela tal região do Cata-Flor. Sua energia protetora impediu o avanço do pântano – moradia das bruxas - e era uma fonte confiável de proteção para o Condado.

Ainda é um lugar de tirar o fôlego, mas os moradores sabem bem essa fronteira entre o Cata-Flor e o Pântano das Bruxas. A paz era tanta, que passados milhares de anos desde a batalha, ninguém nunca havia visto uma bruxa de verdade, e acreditavam que era apenas uma lenda da região. Outros, diziam ter atravessado o bosque, e relataram que no fim do Pântano, há um castelo sombrio onde bruxas estão a reinar.

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O CONDADO

Para chegar lá, devia-se atravessar duas pontes. A primeira, era feita de pedra, muito antiga e muito forte, apesar de estreita. Não era muito comprida, cerca de 10 metros, atravessando o pequeno riacho de água cristalina, onde se podia ver as rochas em seu fundo e belos peixes passeando pela correnteza. O final da ponte dava início à uma bela estrada na planície, cercada por grandes árvores antigas que deixavam um belo tapete de folhas secas no inverno, e vez ou outra podia ver alguém saindo do Condado, carregando produtos para vender na cidade ao lado, ou voltando com o dia de trabalho finalizado. Passavam por ali também alguns viajantes que gostavam de parar para uma boa refeição, beber algo ou tirar uma noite de sono.

A próxima ponte era um pouco menor. Era mais recente, feita de belos troncos de árvores e toras de madeira. O riacho por baixo dela era apenas um estreito fio de água, que mais servia para chegar até as lavouras da parte baixa e fazer a irrigação das plantações.

As árvores agora eram menores, e frutíferas. Algumas pequenas casas, que sempre continham fumaça saindo de seus telhados de palha, não importasse a hora do dia, crianças correndo e algumas pequenas vendas. Os comerciantes colocavam suas barracas para vender produtos, pois miravam os viajantes antes que eles pudessem chegar dentro do Condado e comprar coisas com preços melhores, ou encontrar uma variedade melhor de produtos. Havia de tudo um pouco. Desde frutas como goiabas e mangas, como utensílios de cozinha feitos de barro ou de pedra, ou até mesmo roupas ou cestos. Era um cenário sobretudo honesto, onde todos mantinham bom-humor, inspirados pela privilegiada paisagem rodeada de altas montanhas de cumes com cobertura de neve que escorriam até os bosques.

Por ali vivia uma garotinha de muita energia que todos conheciam. Ela andava por toda a cidade ajudando um pouco a todos que pudesse, cumprimentando as pessoas e roubando um docinho ou outro da padaria do Senhor Jemuel. Ela era chamada de Raio de Sol, visto que tinha cabelos vermelhos, e por onde passava compartilhava seu sorriso a todos. Era uma garota muito bem-vinda. Por onde ia, seu cachorro a seguia. Era um cachorro já meio velho, mas incansável. Era incapaz de fazer mal à uma abelha, mas defendia sua amiga custe o que custasse. Seu nome era Juca, e tinha pelo branco, com algumas partes meio amarronzadas.

Raio de Sol costumava sair de manhã logo cedo, para levar comida aos bichinhos mais velhos do bosque, e por lá passava horas se aventurando com as mais diversas coisas. Uma escalada em um pé de manga já era suficiente para ser sua aventura de livro mágico como a princesa que sobe as escadarias de um castelo.

Ao fim do dia, gostava de passar na lojinha de seu amigo, o Cabeça de Tomate. Ela o colocou esse apelido, por causa do formato de sua cabeça engraçada. Eram companheiros inseparáveis. Sempre davam um jeito de se ver pelo menos uma vez ao dia. Cabeça de Tomate vendia passarinhos feitos de madeira, que ele mesmo criava. Havia uma infinidade de espécies, e alguns ele até inventava. Raio de Sol já havia ganhado dezenas desses passarinhos, presentes dele que eram feitos com muito carinho.

Ela esperava até que chegasse o horário dele fechar a lojinha, para que pudessem caminhar e contar um ao outro sobre seu dia e os mais diversos assuntos.

“Raio de Sol! Acho que por hoje chega! Você me ajuda a fechar?”

“Oba! Ajudo sim. Eu guardo os passarinhos que estão em frente a loja e você guarda as ferramentas e os pedaços de madeira”

“Certo! Não misture eles! Coloque cada um na sua caixa hein!”

“Como se eu não fizesse isso todos os dias! Se adiante! Quero caminhar!”

Alguns minutos depois, esperando na rua, Raio de Sol vê Cabeça de Tomate trancando a porta e lhe entregando uma goiaba. “Toma, guardei pra você. Não pode ficar comendo só docinhos! É uma bela goiaba!”

“Ah! Obrigada!” Disse Raio de Sol puxando-o pela mão para saírem logo dali enquanto mordia seu presente suculento.

Eles seguiam para o riacho grande, uns 15 minutos de caminhada atrás do Condado, onde podiam conversar sobre tudo e em paz. Lá havia o Bosque do Cata-Flor, onde a primavera não parecia nunca ter fim. A relva era florida e a brisa parecia sempre trazer uma novidade. Sentavam-se sempre na grande pedra que haviam encontrado e que já estava com vários desenhos e escritos feitos por eles em conversas anteriores.

“Como vão suas aulas?” perguntou Cabeça de Tomate.

“Ah... eu não sou muito boa..., mas quero muito aprender feitiços. Dá pra ajudar muito se souber um truque ou outro. E as bruxas têm um chapéu tão legal! Eu sou a única da escola que ainda não tem!”

“Você se arrisca demais atravessando aquele pântano, Raio de Sol!

“Ah não se preocupe com isso. Não há nada a se temer por ali. As bruxas fazem o pântano parecer assustador para ninguém ir até a escola no Castelo. Nem o Juca se assusta mais!”

“Olha, eu te fiz um pintassilgo de madeira. Sei que você já tem vários, não precisa levar se não quiser. Eu posso deixá-lo na loja decorando tudo e dando sorte... Só queria que soubesse que ele é seu!”

“Eu adorei. De fato, você nunca fez um passarinho para você. Quero que deixe ele perto de você. Aceito ele como meu, mas que a sorte que ele está disposto a dar também caia em você.”

“Tudo bem! Fico feliz! Agora ele ficou ainda mais especial pra mim. Você deu um toque de sorte nele. Com certeza será bem-vindo na loja. Me diga... o que pretende fazer amanhã?

“Ah nem me lembre. Tenho que apresentar um trabalho na escola de Bruxas. Não sei se vão me aceitar lá por muito tempo. Vamos, já está escurecendo. Quando eu voltar de lá amanhã te conto como foi! E pense em um nome para o pintassilgo. Não quero que ele seja só um passarinho de madeira!”

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NASCE UMA BRUXINHA

Era mais um dia de aula na escola de Bruxas do Condado. Raio de Sol, como sempre, ia animada para a classe, carregando sua mochila com pesados livros, seu lanche e sua varinha mágica que mal cabia na bolsa. O graveto torto ficava com a ponta sobrando pra fora.

As aulas eram à noite, no pequenino Castelo do Pântano Azedo. O caminho era assustador, com árvores secas, muita neblina e muito frio. Parecia que sempre havia dezenas de bichos estranhos uivando e sussurrando por detrás das árvores, mas tudo que se via eram olhos vermelhos brilhantes que tudo vigiavam.

"Uma tremenda bobeira. Poderiam fazer a escola mais perto do Condado lá no Bosque do CataFlor! Ia ser muito mais fácil. Mas fazer o que né... vamos lá pra mais um dia de aula. Hoje devo conseguir meu chapéu!!"

Raio de Sol não se assustava com o trajeto nem com a noite fria. Ela sabia que a escola deveria ser afastada porque os habitantes do Condado não aprovavam sua instalação, mas tinham medo de ir até o pântano.

"Boa noite, senhora Verruga!!! Acho que hoje vou conseguir meu chapéu! A senhora aceita um biscoito? Não estão mais quentinhos, mas ainda estão super saborosos!" - disse Raio de Sol cumprimentando a Bruxa Verruga, uma velha responsável pela chave da portaria da escola.

"Sua bondade e seu bom humor me irritam demais, menina! E ainda por cima esse seu péssimo cheiro de flores do campo. Entre antes que eu comece a espirrar morcegos."

Era dia de apresentação do trabalho, na disciplina Maldade e Tristeza, com a professora Lua Negra. Ela era a professora mais antiga da escola, com 703 anos de idade, conhecida por ser rígida em ensinar a maldade.

As alunas apresentavam seus trabalhos com mais diversos temas, e muitas vezes eram aplaudidas até pela diretora, pois mostravam ideias muito boas de fazer coisas ruins. Raio de Sol odiava, mas queria ser uma bruxinha.

"Muito bem, Raio de Sol! O tema de seu trabalho era Magia Aplicada no Bosque. O que trouxe pra nós?"

Enquanto ela se dirigia para a frente da sala com seu cartaz explicativo, as outras alunas riam sem parar. Elas sabiam que ela era incapaz de pensar qualquer coisa assustadora.

"Boa noite a todo mundo! Minha proposta é aproveitar o feitiço 623 do nosso manual. Ele nos ensina a despejar o caldo da receita ainda quente na grama, para não nascer nenhuma flor. Contudo, eu percebi que se substituir as asas de codornas velhas por girassóis, podemos ter novas espécies de flores, inclusive sendo deliciosas para alimentação dos bichinhos."

O castelo inteiro estremeceu de risadas. Cada pedra das paredes vibrava e uma risada era emitida na torre alta do sino negro. As alunas caíram no chão de tanto rir. Ninguém acreditava que isso poderia ser ideia de quem quer se tornar uma Bruxa de verdade.

"Raio de Sol! Saia da minha frente agora mesmo. Me espere em minha sala para conversarmos. Não posso permitir esse tipo de atitude em frente às melhores alunas de bruxaria. Você me decepciona!" Disse a diretora.

Raio de Sol manteve seu humor. Sabia que não tinha feito nada de errado. Dirigiu-se para a sala no topo do castelo. A escadaria era muito torta, e quanto mais ela subia, mais escuro e frio ficava. O corrimão da escada estava completamente tomado por teias de aranha, e a cada degrau que ela colocava o pé, a poeira subia.

"Não sei porque essas velhas insistem em ter vassouras! Olha só essa poeira!!!!"

Chegando na sala, uma única e imensa cadeira estava em frente à mesa da diretora. Seus pés nem encostavam no chão. Em silêncio, esperou pela Bruxa.

Passado algum tempo, a diretora - uma velha bruxa manca, de dedos tortos e com um dos olhos fechados, subia as escadas enquanto coçava suas verrugas espalhadas por todo o corpo, proferindo palavras de insulto para cada degrau da torre por sua boca faltando dentes.

"Aí está você!! Raio de Sol! Que nome é esse, criatura? Não está na escola errada? Me envergonha tê-la entre nós. Sempre bem humorada, com esse sorriso no rosto, aparência sadia, pele macia e belos cabelos vermelhos. Você cumprimenta a todos, é educada e oferece lanches. Escutei muitas coisas a seu respeito. Sei que brinca com coelhos no bosque, colhe flores, ajuda a todos... eu poderia passar o dia listando tudo que você anda fazendo guiada por seu bom humor!" - disse a diretora enquanto passava pela jovem menina, lançando-se lentamente à sua cadeira atrás da mesa, com dificuldades para se sentar, mas ansiando ter uma posição privilegiada que a permitisse encarar sua vítima olho a olho.

"Me desculpe, Senhora Diretora. Eu só queria saber fazer encantos e acho que eu seria muito boa nisso. Minha família não pode pagar pela Escola de Fadas, e eu odiaria ter asas. Elas parecem coçar, não gosto delas. Eu gosto do chapéu que vocês usam. Eu só queria ter o chapéu mágico!"

O chapéu era a primeira coisa que as alunas de bruxaria conquistavam no curso. Era uma peça única de cada uma. O utensílio era fiel à sua bruxinha para sempre, podendo ser usado apenas por ela. Era muito fácil conseguir. Bastava fazer alguma maldade com outra aluna e a escola te dava. Quase todas as alunas conquistaram seus chapéus fazendo maldades com a Raio de Sol, mas ela ainda não estava pronta pra isso.

"Olhe, menina, eu acho que você está no lugar errado. É uma vergonha você sequer ter um chapéu! Isso mostra sua incompetência em praticar a ruindade. Já tentei te expulsar, mas você insiste em voltar, e as outras bruxinhas apoiam sua vinda. Você as diverte e acaba lhes garantindo chapéus de feiticeiras, sendo alvo fácil."

"Se a senhora me conceder um chapéu, eu prometo que nunca mais me verá na escola. Ele não precisa ser um chapéu mágico. Pode ser um que não funciona ou que está estragado no almoxarifado!"

A bruxa então se levantou lentamente da cadeira, queixando suas dores nas pernas. Chegou mais perto da garota... andou em volta dela enquanto a analisava. Cheirou um pouco seu cabelo e virou o rosto rapidamente não suportando o perfume. Nervosa, ela disse:

"Eu aceito! Sua presença me irrita muito. Temos muitos chapéus que não funcionam mais lá no calabouço. Eles não servem de nada. Escolha um e nunca mais volte."

"Sério? A senhora vai mesmo me dar um chapéu? Posso pegar um com fivela grande? Qualquer um? Posso te dar um abraço? Estou muito feliz!"

"Suma da minha frente, anjo irritante! E não volte mais. Pegue o seu maldito chapéu e desapareça daqui!"

Raio de Sol não pensou duas vezes. Desceu correndo as escadas e dirigiu-se ao mórbido calabouço com cheiro de putrefação, onde encontrou com Jobú, um anão retorcido em rugas que carregava trêmulo um lampião e chaves dos armários do calabouço. As bruxas fizeram um feitiço para ele nunca sair de lá e ser obediente às ordens da escola, cuidando do almoxarifado. Ele não ligava, pois gostava da sujeira, do frio e da escuridão. Ele falava sozinho enquanto andava pelo calabouço, sempre as mesmas palavras: “212 chaves... eu tenho 212 chaves. Jobú tem um lampião e 212 chaves, é isso que Jobú tem!”

"Olá Jobú!!!! Eu vim à mando da diretora! Ela..."

"Oi Raio de Sol. Eu já sei. Ela enviou um morcego-correio me contando tudo. Ande logo, escolha seu chapéu. Tem milhares deles ali. Estou com pressa. Hoje teremos sopa fria de calangos, não perco por nada. 212 chaves!"

Eram tantos chapéus inutilizados, que Raio de Sol subiu em cima da pilha abandonada, checando um por um. Muito tempo depois, ela achou o que mais lhe agradou. Era exatamente como ela queria: com remendos costurados, de couro grosso e velho e uma imensa fivela. Um pouco rasgado, mas perfeito!!

Obrigado Jobú!!! Bom apetite com sua sopa fria. Eu não volto mais, mas se quiser, me envie cartas.

Raio de Sol sumiu pelo caminho de volta pra casa, cheia de alegria, com seu chapéu em mãos. Mal esperava para contar para Cabeça de Tomate. Chegando em casa, sequer entrou. Foi para os fundos, onde havia um tanque.

"Preciso lavar ele. Quanta poeira!!! Está imundo. E tem um cheiro péssimo. Ele vai ficar muito bonito e novo em folha!"

Após deixar de molho por vários dias, Raio de Sol cuidou para que ele ficasse bem seco. O mal cheiro havia saído, graças ao sabão de flores que ela mesmo fazia. Com uma agulha e uma linha grossa, ela restaurou os remendos.

"Isso ficou muito bom!!!! Um belo chapéu!!! Vejamos como fica em minha cabeça"

O chapéu era imenso! Mais um pouco e seria maior que a própria garota. Ele de fato estava com aparência ainda velha, mas cheirava bem e o couro estava novamente hidratado. A fivela não tinha mais tanta ferrugem e os rasgos estavam costurados. Era a hora de se ver no espelho. Mas algo estranho aconteceu assim que ela colocou na cabeça!

O chapéu parecia ter vida própria!!!! Ele estava feliz, apaixonado pelo cabelo vermelho da garota. Estava disposto a ser seu chapéu pra sempre. Ele começou a balançar a sua ponta no topo mostrando estar feliz e a garota se sentiu abraçada.

"Ora!!!! Mas vejam só!!!! Parece que o chapéu ainda funciona!!!!! Eu me dei muito bem, tirei a sorte grande!!!! Tenho um chapéu mágico de verdade, e ele parece ter me aprovado como amiga!!!!! Estou muito feliz"

De fato, ela não tinha vocação nenhuma para ser uma bruxa má. Mas ela tinha um chapéu mágico, e sua varinha de iniciante sabia fazer uma coisinha ou outra. Nada muito poderoso, Mas estava consumado: nascia uma bruxinha disposta a fazer coisas boas.

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A SOMBRA

Era manhã de um novo dia. A bruxinha abriu os olhos e pela janela viu a sua árvore favorita, maior que sua casa. Ela gostava de ficar mais alguns minutos olhando antes de levantar, porque a cada dia, a árvore estava diferente. Uma nova folha amarelada, um passarinho diferente, e até mesmo a forma como o sol furava sua copa. Seria um belo dia.

Num pulo animado, colocou os dois pés no chão de uma vez! Esticou a coluna levantando os braços em um bocejo sorridente e desceu as escadas para tomar seu café da manhã.

Cabeça de Tomate havia deixado biscoitos frescos e café quente perto da lareira, para manter a temperatura. O cheiro do café matinal deixava a bruxinha ainda mais feliz.

"Veja, Juca! Parece que teremos um ótimo dia, você não acha? Começamos muito bem hoje!"

Enquanto comia seus biscoitos de nata com flocos de chocolate e degustava seu café, ela lia o bilhete deixado por Cabeça de Tomate em cima da mesa:

"FUI PEGAR MAIS MADEIRA. HOJE PRETENDO FAZER UMA CADEIRA, ACHO QUE VOCÊ IRÁ GOSTAR! VOLTO EM ALGUMAS HORAS. ESCONDI METADE DOS BISCOITOS NO POTE DO ARMÁRIO, PRA VOCÊ NÃO COMER TUDO"

"Juca! Ele é mesmo um bobo! Ele sempre me conta onde esconde as coisas. Claro que vou roubar mais um ou dois biscoitos antes de sairmos" - riu Raio de Sol.

Aproveitando a bela manhã, ela foi levar o cachorro para dar uma volta. O peludo corria como se não houvesse amanhã! Farejava tudo que via, e às vezes voltava para farejar a mesma coisa de novo.

"Não vá muito longe, Juca. Vou praticar feitiços com meu chapéu, você não apronte!!"

Raio de Sol estava destinada a conseguir fazer bolo de brigadeiro, uma receita que ela havia visto no canal PUXAQUEBRUXA na televisão, onde ensinavam a fazer receitas usando o chapéu mágico.

"Bom... vejamos... tenho que colocar o chapéu em cima de uma boa pedra... essa parece ótima. Aí espero um passarinho passar por perto e digo as palavras que anotei no episódio de ontem. Mas acho que se eu esperar dois passarinhos, talvez o bolo fique maior. Vou tentar."

Esperando então o momento certo com sua varinha, Raio de Sol olhava pro chapéu de braços levantados como um maestro prestes a dar o momento de início para uma orquestra tocar.

"Mas que droga... já passaram uns 3 coelhos e nada de um par de passarinhos. Vou esperar mais um pouco... qualquer coisa eu compro na vila um bolo pronto."

Passarinhos passaram, mas ela esperava pelo momento certo: um par de passarinhos voando juntos dariam um bolo duas vezes maior. Eis que então... uma revoada inteira de andorinhas estava em sua direção.

"Meu Deus! É agora!!!! Isso vai me render uma padaria inteira!!!"

Com os passarinhos perto, ela gritou pro chapéu apontando sua torta varinha de madeira:

"Ovos e farinha, leite e chocolate! Brigadeiro e fermento, bolo para mim! Asse tudo isso e deixe tudo bem quentinho!"

BOOOOOMMMMMMMMM!!!!!

Um barulho imenso aconteceu no chapéu. Coelhos saíram de suas tocas para ver. As árvores tortas ficaram esticadas de susto e o sol que já estava quase no centro do céu desceu mais um pouco pra ver o que havia acontecido.

A notícia boa, é que havia funcionado. Eram mais de 30 bolos de chocolate, quentinhos e com cobertura. Mas Raio de Sol, mesmo feliz, percebeu que algo estava estranho!

"Ah não!!!! De novo não!!! Eu custei a convencer ela a me acompanhar sem fugir!"

Era a sua sombra de novo. Ela andava fazendo travessuras depois que Raio de Sol se tornou uma bruxinha, se escondendo de sua dona e indo pro lado oposto. Recentemente ela tinha aprendido a correr e se esconder. Ela prometeu não fazer mais isso, mas sustos grandes ainda a fazem fugir.

"Mas que droga! Queria comer meus bolos, mas agora tenho que procurar aquela danada de novo!!!! Sabe-se lá pra onde ela correu! Vai me levar o dia todo! Odeio ficar sem sombra! Bom... mas dá pra comer um pouco antes de procurá-la.”

Sentada na pedra com seu enorme chapéu e balançando os pés de alegria, Raio de sol degustava seu bolo.

"Raio de Sol!!!! Encontrei belas madeiras para fazer a cadeira. Aconteceu um barulho tão grande que derrubou belos galhos, você não ouviu? Onde arrumou tanto bolo de chocolate?"

"Não... eu não ouvi nada... deve ter sido perto de onde você estava. Aqui estava tudo calmo, quando alguém perguntou se eu podia aceitar esse carregamento de bolo que ia pra padaria, porque eles desistiram da compra. Aí sentei pra comer. Quer uma fatia?"

"Raio de sol!!!! Cadê sua sombra? O que você fez? Você andou vendo programa de receitas de bruxas de novo né! Esse barulho!!! Assustou sua sombra de novo, não foi?"

"Bom... eu só fiz uns bolinhos..., mas não vou comer todos... eu vou deixar aqui no bosque pros bichinhos. O feitiço acabou espantando a sombra sim. Isso me lembra que estou triste. Droga... não quero ficar sem sombra! Vou procurá-la."

"Ah, ela sempre volta quando a noite chega... ela vai ficando mais fraca... em breve ela volta, não se preocupe."

"Você fala isso porque sua sombra não foge de você. Ela é uma ótima sombra, só está um pouco rebelde. Vou procurar ela. Você vem comigo?"

"Claro que sim, Raio de Sol. Vou deixar a madeira por aqui e na volta levamos."

Partiram os dois atrás de pistas da sombra, mas era muito difícil achá-la. Ela adorava se esconder. A essa altura, o susto com certeza já havia passado e agora ela estaria fazendo o que mais gosta: zombar da Raio de Sol.

Andaram por todos os lados. Ela estava mesmo brincando com eles. Um cavalo com uma sombra de nove patas??? Com certeza era a danada fazendo graça. Mas era inútil. Raio de Sol pulava nela, mas ela fugia e fazia a sombra da árvore parecer em formato de elefante. Ela podia ter a forma que quisesse se não estivesse ligada à sua bruxinha.

"Raio de Sol... ainda é meio-dia. Ela está cheia de energia. Irá nos cansar demais. É melhor irmos, no final do dia ela tá mais fraca e volta."

"Mas e se ela ficar sem energia e nunca mais voltar? Por isso fico brava com ela!!! Eu vou xingar ela muito quando a pegar de volta. Imagina se ela gruda na sombra de um pato e a noite chega? Vai ser pra sempre sombra de pato!"

"Tudo bem! Tive uma ideia então, Raio de Sol. Ela quer brincar contigo, então estará por perto. Vamos para um lugar plano e sem árvores ou coisas para fazer sombras. Ela será capturada mais fácil. Você se esconda. Vou fazer um boneco de palha pra ela achar que é você e me sentarei ao lado. Ela virá achando que é você e que parou de dar atenção. Quando ela se distrair, você a pega por trás!"

"Pode ser que funcione. Mas faz um boneco bonito. Toma meu chapéu."

Raio de sol se escondeu atrás de umas pedras enquanto Cabeça de Tomate estava sentado ao lado do boneco de palha que usava o chapéu de sua bruxinha.

"Era pra eu estar fazendo minha cadeira. Aqui estou eu conversando com um boneco de palha esperando uma sombra... se eu conto isso para as pessoas, elas não acreditam! Tomara que não demore".

Apenas alguns minutos e lá vinha ela! A saltitante sombra brincalhona. Passou em frente ao boneco, na esperança de que a suposta Raio de Sol de palha se levantasse para brincar de pegá-la. Mas o boneco não se mexia.

"Espere o momento certo, Raio de Sol! Ela está chegando cada vez mais perto!"

Mas ela cansou. O boneco não fazia nada... e já tinha sua própria sombra. A sombra achou que sua dona não se levantaria para brincar com ela, mas pelo visto, já a substituiu. Triste, ela foi descansar. Foi andando devagar para as rochas onde estava escondida sua verdadeira dona, com intenção de ser sombra de pedra pra sempre.

"Se não posso correr, que eu seja uma sombra de pedra!" Pensou a sombra.

Era o momento ideal. A bruxinha pulou no chão e pegou ela em cheio!!!!

"Você não me apronte mais isso!!!! Sabe o que acontece se a noite chegar e você estiver longe de mim né!!!! Era pra gente estar comendo bolo!!!! Não fuja mais!"

A bronca foi necessária, porque Raio de Sol gostava muito dela e não queria perdê-la.

Era pra ter sido um dia tranquilo e com muito bolo pra comer..., mas foi uma busca exaustiva.

Bom, por sorte, à noite já havia uma nova cadeira de madeira para sentar... e o fogo da lareira revelava uma sombra feliz de ter sua bruxinha de volta.

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PRATICANDO MAGIA

Já se passaram algumas semanas desde que ela havia se tornado uma bruxinha. É bem verdade que por ter sido uma péssima aluna na escola de bruxas e não conseguir fazer maldades, ela foi privada de aprender magias mais elaboradas. Seu chapéu restaurado estava apaixonado por sua nova amiga, mas não era tão potente. A sombra agora era mágica e estava mais companheira, querendo fazer parte das aventuras de Raio de Sol. A varinha mágica também era muito básica, mas ela conseguiu e se tornou a tão desejada bruxinha. Ela queria ser diferente. A mágica e os feitiços poderiam ajudar a todos, mas para isso, precisava praticar e aprimorar as técnicas e suas ferramentas.

“Não dá pra aprender magias boas só vendo receitas de comidas com feitiços no PUXAQUEBRUXA! Preciso sair e atender a algum chamado de alguém que precisa de mim de verdade.”

Raio de Sol então colocou seu livro de magias na mochila junto de sua varinha. Colocou o chapéu na cabeça e decidiu que o Condado saberia que ela era uma bruxinha disposta a ajudar todos!

“Vamos Juca! Vamos assumir nosso destino” – Saiu de casa Raio de Sol com espírito de heroína corajosa prestes a ser a pessoa mais útil de sua região.

“Olá senhor Nicolas! Olá senhora Jumira! Vejo que precisam de ajuda para terminar os cestos de palhas que vão vender na Feira do Pavão neste fim de semana! Se reparem em meu chapéu e minha varinha mágica, poderão notar que agora sou uma bruxa de verdade! Mas não se assustem comigo! Sou uma bruxa diferente e faço o bem. Gostaria de saber como a minha magia poderia ajudar-lhes!” “Ahahah Olhe isso Nicolau! Ela não é uma graça?! Que belo chapéu! Raio de Sol, você realmente nos anima com seu bom humor, minha querida! Agradecemos, mas de fato precisamos terminar tudo até o fim de semana para conseguirmos boas vendas na Feira. Volte mais tarde e estaremos descansando. Será um prazer brincar um pouco com você!”

Raio de Sol ficou decepcionada. Não a levavam à sério. Tentou dezenas de investidas semelhantes, tentando ajudar o padeiro, a vendedora de frutas e muitos outros que ali habitavam. Mas todos levavam suas falas como brincadeiras de uma garota com uma invejável imaginação.

“Bom, eu não os culpo, Juca! Estão ocupados demais com problemas para se permitirem acreditar na alegria. Os sonhos dos adultos são cinza e diferentes. Quando você envelhece, você abre mão das cores e eles não querem perder o precioso tempo reservado para problemas, ao invés de se arriscar no caldeirão colorido de sonhos que aparece para eles. Você só se identifica estar vivendo um sonho, apenas se você está ameaçado a falhar. Eles têm medo da paz! Vamos para o bosque, lá poderemos encontrar algo para nós!”

A decepção deu lugar à esperança novamente. Ela não se permitia ficar triste por muito tempo, apenas o instante necessário para tirar conclusões.

Acompanhada de seu cachorro, foram para o Bosque do CataFlor. Sentaram na pedra favorita para traçar um plano. Decidiu que a coisa iria fluir naturalmente e seu destino viria até ela.

“Raio de Sol! Esse é seu nome, não é?”

“Ei! Quem fala comigo? Posso te escutar, mas não posso te ver! Onde você está?!”

“Aqui embaixo, Raio de Sol!”

“Um ratinho??? Como sabe meu nome? E como pode falar? Eu nunca vi um rato que fala antes!”

“É seu chapéu, Raio de Sol! Todos aqui do bosque temos medo das bruxas, porque sabemos que o chapéu delas lhes dá o poder de escutar e conversar com os animais! Mas não a temo. Te identifico como uma bruxa, mas sempre lhe tive prestígio! Seu bom humor e sua energia positiva me dizem que você jamais poderia fazer mal... e arrisco dizer que está destinada a fazer coisas boas! Me diga, Raio de Sol! Devo me decepcionar por pensar isso? Seria você agora uma garota convertida para a maldade? Irá nos causar mal?”

“Meu chapéu faz isso? Uau! E olha que ele estava estragado!!! Deve ter sido um chapéu muito bom no passado pra manter esses poderes!”

“Sim, Raio de Sol! Os bichos do Cata-Flor estão todos em alerta. Vimos que está usando isso na cabeça, e a grande maioria de nós não quer se arriscar chegando perto de você! Não somos bons em nos defender, então preferimos nos esconder! Mas eu não a temo. Você sempre vem até essa pedra e está sempre feliz!”

“Pois você acertou em cheio, Sr. Rato! Eu jamais lhes causaria mal algum. Pelo contrário! Sou uma recém-bruxa que está tentando aprender magias e feitiços, mas quero usar tudo isso para fazer o bem. Em meu Condado não acreditam em mim, então vim ao bosque pensar um pouco e talvez encontrar alguém que precise de minha ajuda!”

“Ah!!!! Eu sabia!!!! Eu estava certo o tempo todo! Os bichos ficarão felizes! Estamos sempre a te observar e adoramos seu cabelo vermelho. Você alegra muito nosso ambiente. Vou contar a todos.”

“Eu fico muito feliz, Sr. Rato. Você possui algum nome que eu possa usar para te chamar?”

“Me chamam de Ederbaldo! Eu tenho uma ninhada de filhotes enormes e minha esposa Clemência cuida deles enquanto saio para conseguir cascas, frutas... coisas para comer e fazer abrigos. Mas o inverno se aproxima. Não estou dando conta, porque preciso estocar alimento de sobra, pois em breve não teremos fartura!”

“Oh! Sra. Clemência deve ter muito orgulho do senhor! Parece ser um ratinho corajoso e responsável. Pois bem, Sr. Ederbaldo! Prometo ajudar. Precisarei estudar meu livro de feitiços, pois ainda não sei fazer muitas mágicas. Se puder me encontrar aqui na pedra amanhã, lhe trarei alguma solução para você e sua família!”

“Ah, mas eu fico muito feliz, Raio de Sol! Clemência irá pular de alegria! Ela adora você. Não pode sair da toca por causa de nossos filhotes, mas ela sempre te observa e me pede para apanhar frutas vermelhas para que ela possa pintar a franja dela como a sua. Estarei aqui, minha nova amiga! Por hora, preciso ir. O coelho Josimar me disse que jogaram algumas frutas velhas fora logo na entrada da cidade. Serão valiosas para a noite de minha família!”

“Faça seu melhor e cuide de sua família, amigo ratinho! Você há de conseguir recompensas, dado o seu comprometimento! Até amanhã!”

Partiu então Raio de Sol correndo de alegria. Livro debaixo do braço, varinha na outra mão, mochila com goiabas e o cachorro à alguns metros à frente sorridente junto de sua amiga!

Chegando de volta à cidade, trombou com Cabeça de Tomate.

“Tome! Lhe trouxe goiabas! Tenho muita coisa nova para te contar. Você já vai fechar a loja?”

“Ah, obrigado Raio de Sol! São belas goiabas! Bom, ainda faltam umas duas horas para fechar e fiz uma ótima venda de oito bem-te-vi de madeira para uma senhora que ficou de passar aqui para pegar no final do dia.”

“Certo. Vamos esperar ela chegar para você não perder sua venda. E depois fechamos porque minhas novidades são importantes, tudo bem?”

“Claro que sim, Raio de Sol. Eu não conseguiria ficar mais tempo com a loja aberta, visto que me deixou extremamente curioso... e como combinamos, nossas conversas ficam melhores quando estamos longe das pessoas.”

Raio de Sol guardou seus utensílios de bruxinha no fundo da loja, atrás do balcão. Não queria ser motivo de risos para as pessoas que se divertiam achando ser uma fantasia para brincar por aí. Sentaram-se em frente à loja, e conforme um ou outro cliente chegava, eles dividiam as tarefas. Raio de Sol já sabia tudo sobre as vendas, conhecia a loja e os produtos como a palma de sua mão e auxiliava como vendedora. Ela mostrava tudo aos clientes, apresentava os produtos, enquanto Cabeça de Tomate atendia o balcão fechando as vendas. Assim o dia passaria mais rápido.

Ao fim do dia, a cliente enfim havia chegado e satisfeita, pagou pelos bem-te-vi. Foi uma ótima venda e daria para comprar novos canivetes para esculpir mais produtos.

“Tudo certo Raio de Sol! Vou guardar as ferramentas. Você pega suas coisas atrás do balcão e fecha a loja pra gente. Sairei pelos fundos e te encontro na rua como de costume!”

Loja fechada, Cabeça de Tomate mal chegava perto de Raio de Sol e foi seguro pela mão, puxado a correr em direção à ponte, para se afastar um pouco de todos e contar as novidades.

“Aqui! Vamos sentar debaixo da ponte. O som da água sempre ajuda a emudecer nossas conversas para quem passa por aqui. Preciso te contar tudo!”

Raio de Sol então falou sobre o seu dia, os poderes de seu chapéu e o Sr. Ederbaldo, ratinho cujo ela prometeu ajudar.

“Nossa! Está acontecendo então! Você é definitivamente uma bruxinha que faz o bem! Fico feliz por você. Mas me diga... o que tem em mente? Como pretende ajudá-lo? Não seria melhor comprarmos alguns legumes e levar para eles? Ou você acha que já está pronta para fazer isso?”

“Eu consigo!!!! No PUXAQUEBRUXA ensinam muitas receitas. São péssimas, azedas, fedorentas e nojentas, porque são coisas de bruxas, mas eu mudo os ingredientes e sempre funciona comigo. Faço coisas gostosas! Eu quero usar o feitiço do CortaQueBrota com cenouras! Elas nunca irão acabar!”

“Eu não sei o que é o feitiço do CortaQUeBrota, Raio de Sol! O que isso faz? É perigoso?”

“Ora, mas o próprio nome do feitiço já explica o que ele faz. Uma vez amaldiçoado pelo feitiço, tudo que você cortar irá nascer de novo. Uma lenha amaldiçoada com o CortaQueBrota, iria voltar ao seu tamanho normal mesmo que reduzida à metade por um machado. Isso faria dela uma lenha infinita!”

“Isso parece fantástico, Raio de Sol! Com cenouras infinitas, eles teriam alimento sem precisar se esforçar tanto e correr riscos por aí! Espero que você consiga!”

“Eu combinei de levar a solução amanhã no fim da tarde. Você vem comigo?”

“Claro! Quero ver isso de perto, e adoro caminhar contigo. Passe na loja. Irei fechar mais cedo. Estão todos ocupados com a Feira do Pavão, amanhã não terá muito movimento.”

“Combinado!”

Raio de Sol foi para casa estudar os feitiços de seu livro. O CortaQueBrota não era difícil de fazer, era até um feitiço bem básico para uma bruxa. Mas ela não queria errar. Testou com alguns pepinos e com maçãs e a cada vez que cortava os alimentos, eles regeneravam-se à forma inicial novamente. Era hora de descansar. Tudo daria certo.

A manhã seguinte foi movimentada. A bruxinha acordou mais cedo, ansiosa. Pensou até em ir ao Bosque sozinha, mas havia marcado com o Cabeça de Tomate e o ratinho Sr. Ederbaldo também havia combinado de lhe encontrar ao final do dia. O jeito era passar o tempo na loja de passarinhos de madeira, assim ela iria se distrair e o tempo passaria mais rápido.

Chegando na loja, viu Cabeça de Tomate, ainda preparando as prateleiras da calçada com mercadoria e terminando de abrir a lojinha.

“Bom dia, Cabeça de Tomate!”

“Ah! Raio de Sol! Que bom lhe ver! Tome, coloque esses azuis do lado esquerdo e os verdes você mistura com os amarelos nas outras prateleiras. Tem café saindo em cinco minutos lá no fundo da loja. Vamos arrumar tudo e lanchamos!”

Raio de Sol não continha sua alegria. Entrou na loja cantando, guardou seus utensílios de bruxa atrás do balcão e logo foi para a calçada arrumar as mercadorias. Loja arrumada, agora era só esperar os clientes e o dia passaria rápido. Era o momento do café.

“Deu certo! Eu treinei a noite toda! Testei em maçãs e pepinos, e foi um sucesso! Não faltará comida para Sr. Ederbaldo, sua família e para os outros bichinhos do bosque neste inverno!”

“Jura? Então você conseguiu! Eu sabia que iria conseguir! Se te conheço bem, quando você faz esse olhar determinado você nunca falha no que quer!”

Foi um dia de rotina normal na loja, apesar do movimento um pouco mais baixo que o normal, em vista da Feira do Pavão que aconteceria no dia seguinte. Estavam todos ocupados preparando comidas, bebidas, produtos para vender, decorações e mais um monte de tarefas que eram necessárias para o evento acontecer. Sobrou tempo para conversarem bastante.

A tarde logo se aproximou e com poucas visitas na loja, decidiram fechar e executar o tão esperado plano. O ritual de fechamento da loja se repetia como de costume, e prontos para partir, Juca saiu correndo na frente, parecendo já saber o que viria pela frente. O caminho até o bosque do CataFlor ainda rendeu mais algumas conversas, para aliviar a ansiedade de logo chegarem.

“Eu preparei duas cenouras com o feitiço do CortaQueBrota. Vou deixar uma com a família do Sr. Ederbaldo e a outra ele pode dar para outros bichos. Depois farei mais alguns legumes para que eles não enjoem de tanta cenoura!”

“Raio de Sol!!! Que bom vê-la, minha amiga! Sabia que viria! Clemência está ansiosa para lhe conhecer pessoalmente. Ela roeu uma casca de madeira e lhe fez um belo broche para seu cabelo. Não precisa usar se não gostar, mas ela ficará muito feliz se aceitar o presente em gratidão por sua ajuda!”

“Mas é claro que sim! Tenho certeza que ficou lindo e vou usar. E lhe trago boas notícias! Te fiz cenouras mágicas. Mas lhe contarei tudo quando chegarmos em sua toca.”

A toca de Sr. Ederbaldo era muito limpa. Sra. Clemência deixava tudo organizado. Embora fosse pequena para uma pessoa entrar, Raio de Sol conseguia se agachar e caminhar para dentro da toca, e ainda lhe sobrava espaço em cima de sua cabeça. A casa era decorada com um fogão feito de latas velhas de pêssegos. Rolhas eram usadas como banquinhos em volta da mesa, que era uma pequenina gaveta de madeira que Sr. Ederbaldo com muito custo conseguiu trazer da cidade até a toca, presente de casamento para sua querida Clemência.

“Olá Sra. Clemência! Enfim, vim te conhecer pessoalmente. Que casa aconchegante você tem aqui! E quantos filhotes bonitos você cuida! Muito obrigado por me receber aqui!”

“Solte o vestido dela!” - Gritou Clemência para um de seus filhotes que mordia a ponta do vestido da bruxinha. “Estava ansiosa para te conhecer, Raio de Sol! Te observo sempre que vem no bosque. Ederbaldo deve ter lhe falado sobre o quanto gosto de seu cabelo vermelho! Não repare no tamanho de nossa casa. Sei que para você é apertada, mas sinta-se bem recebida! Tome! Lhe fiz um broche de cabelo. Não é grande coisa, mas não tive tempo suficiente para roer algo mais adequado!”

“Muito obrigado, Sra. Clemência! E eu lhe trouxe cenouras mágicas. Basta comer um pedaço, e um novo pedaço irá nascer. Você pode partir pedaços e dividir entre seus filhotes e amigos, e a cenoura irá voltar ao tamanho normal de novo. O inverno não será rigoroso em sua alimentação, e em alguns dias lhe trarei mais vegetais com o mesmo feitiço.”

“Não pode imaginar minha alegria, bruxinha! Você é mesmo um raio de sol para nossa casa. Passe sempre por aqui para nos visitar quando estiver no CataFlor. Será sempre bem-vinda!”

Cabeça de Tomate que esperava sentado do lado de fora da toca, ouvia tudo e ficou feliz por ver que deu certo. Dando a mão para Raio de Sol, ajudou-a a sair da toca e endireitou seu chapéu em sua cabeça.

“Muito bem! Missão cumprida, Raio de Sol! Estou muito feliz por você!”

“Obrigado! Precisamos comemorar! Ande! Vamos fazer fantasias para irmos na Feira do Pavão amanhã!”

A bruxinha estava incansável de alegria, e embora a semana tivesse sido dura com os trabalhos da loja, Cabeça de Tomate não podia negar o convite. Estar perto dela o fazia descansar de qualquer coisa.

Voltaram ao Condado, e dessa vez sem os feitiços, criaram suas fantasias costurando e cortando tecidos, papelão, espuma...

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A FEIRA DO PAVÃO

O dia começava em música! Todos estavam fantasiados, rindo, brincando e se dirigindo para a praça do Condado. Uma fartura de barraquinhas e muito sorriso nos olhares dos vendedores. Havia de tudo. Maçã do amor, barracas de doces, milho cozido, os mais diversos pães e bolos, carne assada, barracas de jogos e brinquedos. A rua era decorada com bandeiras coloridas. No chão, folhas que eram tingidas das mais diversas cores e arremessadas para o ar pelos festeiros, criavam um tapete colorido e alegre que voava com o vento. O cheiro era tão bom quanto as músicas e as pessoas andavam em todas as direções.

Raio de Sol se fantasiou de abelha, com um vestido amarelo e preto listrado que foi a inspiração para ela criar o resto de sua fantasia. Asas brancas de papelão nas costas, anteninhas nos cabelos vermelhos e um cesto escrito “MEL”, que continha quitutes para se deliciar durante a feira.

Cabeça de Tomate se fantasiou de soldado, com uma espada de madeira presa à cintura com um cinto de couro, capa vermelha e um escudo de papelão redondo que ele recortou e colocou uma pintura divertida!

Juca estava vestido de jacaré, com um traje verde e dentes brancos feito de papelão. Acharam engraçado colocar os olhos meio vesgos na fantasia. Juca não ligava, só queria ir para festa porque já sabia da fartura que lhe esperava.

“Olhe só você! Está super engraçado com sua capa vermelha e essas botas imensas! Não posso parar de rir. Adorei a fantasia. Muito me diverte te ver assim!”

“Pois veja só quem fala! Suas antenas balançam enquanto você anda, assim como suas asas de papelão! Mais um pouco e eu realmente acreditaria que você é uma abelha de verdade!”

Tudo corria bem. Os dois visitaram várias barraquinhas, brincaram nos jogos, assistiram o teatro e pararam um pouco para descansar debaixo da árvore da pracinha.

Em meio à tantas pessoas, um ratinho tentava se desviar para não ser pisoteado, e com muita pressa, corria para chegar até Raio de Sol.

“Puxa vida! Aquele não é o Sr. Ederbaldo? Coitado, parece muito assustado! Irão pisar nele. Porque se arrisca tanto? Fique aqui Raio de Sol. Irei resgatá-lo”.

Rapidamente, Cabeça de Tomate conseguiu pegar Sr. Ederbaldo e colocá-lo em seu bolso da camisa, lhe sobrando a cabeça para fora. “Venha, vamos para a árvore junte de Raio de Sol. Lá está mais calmo e você nos explica tudo!”

O ratinho foi tirado cuidadosamente do bolso e colocado no chão. Raio de Sol lhe deu um pouco de água e pedaços de pão, para que se acalmasse.

“Sr. Ederbaldo! Que perigo! Porque se arrisca entre tantos pés! O Sr. Poderia ter sido pisoteado!”

Sr. Ederbaldo falava coisas sem parar e apontava para o bosque, mas Raio de Sol não podia entender nada do que ele dizia...

“Meu chapéu! Sem ele não posso entender o que o senhor está dizendo. Venha. Vamos buscar meu chapéu em casa e poderei escutar tudo que me diz!”

Voltaram apressadamente então os três para buscar o chapéu mágico da bruxinha, que finalmente conseguiu lhe entender!

“Rápido minha amiga! É Clemência! Ela comeu a cenoura mágica. Tudo estava dando certo. Meus filhos não sentem mais fome e nossos amigos se alimentam e agradecem. Mas Clemência... Raio de Sol! Ela está enorme! Não quero que ela seja tão grande. Os filhotes até se divertem, mas não é a minha Clemência! Ela está do tamanho de um coelho! Será que você pode nos ajudar?”

“Do tamanho de um coelho, o senhor disse?”

“Sim, Raio de Sol! Um coelho de rabo comprido, é isso que ela está se parecendo!”

“Não se preocupe Sr. Ederbaldo. Tudo dará certo. Vamos visita-la agora mesmo.”

Sr. Ederbaldo foi montado nas costas de Juca (uma cena inusitada de um rato cavalgando um jacaré). Já não bastasse essa visão, Raio de Sol se continha para não rir quando pensava em Clemência parecendo um coelho. A bruxinha conseguia achar humor em tudo, mas respeitava Sr. Ederbaldo e agia com seriedade na situação. Em poucos minutos chegaram à toca.

Entre, Raio de Sol! Ela está lá dentro!

“Olá Sra. Clemência! Me parece que está se preparando para desfilar na páscoa! Hahaha Embora muito grande, tenho que admitir que está linda, e sua pelagem lhe cai super bem!” – Raio de Sol tinha o hábito de brincar em situações adversas para espantar o pessimismo e tristeza.

“Raio de Sol! Que bom vê-la minha amiga! Você gostou de minha nova pelagem? Ederbaldo se desespera por pouca coisa. Adorei meu novo tamanho, mas essa noite tive que dormir na mesa de gavetas. Será uma situação impraticável, e o meu velho Ederbaldo está com saudade de meu tamanho normal. Acha que pode fazer algo à respeito?”

“Ah, mas é claro! Hoje a senhora não irá comer mais da cenoura mágica. Não queremos que se transforme numa ovelha, não é mesmo! Eu tenho comigo essas sementes. Vou lhe dar três delas. Coma uma a cada 2 horas e voltará ao seu tamanho normal. A senhora deve ter alguma intolerância à cenouras mágicas. Amanhã lhe trarei um rabanete ou uma beterraba. Não terá esse efeito adverso.”

“Pode ser o rabanete, Raio de Sol? Eu adoro rabanetes!”

“Que seja rabanetes então! Vou enfeitiçar e lhe trago pronto para seu consumo!”

“O seu cachorro é um jacaré? O que ele comeu?”

“Ah não Sra. Clemência! Ele está fantasiado. É a Feira do Pavão. As pessoas todas estão com fantasias na festa. Está apenas começando, vai durar o dia todo! Porque não vem com a gente?”

“Oh! Eu nunca fui a uma feira! Eu não iria atrapalhar? As pessoas gritariam se vissem um rato desse tamanho! Não quero atrapalhar ninguém nem assustar os outros!”

“Ah, uma bobagem! Se me permite dizer, não fosse pela sua cauda de rato, a senhora de fato seria um coelho. Vamos fazer um coque nesse rabo e ninguém vai se assustar com uma coelhinha tão bonita!”

“É mesmo muito gentil, Raio de Sol, mas tenho muitos filhotes e Ederbaldo ainda assim é um rato. É perigoso pra gente!”

“Pois eu insisto! Levamos todos em uma caixa e podemos ficar um pouco distante, do alto do morro para você e sua família verem todo o Festival!”

“Bom... sendo assim, acho que não tem problema. O que acha, Ederbaldo?”

“Bom... as crianças já entraram na caixa... acho que estão querendo ir. Tudo bem, será bom pra divertir um pouco. Mas que não pareça nenhum coelho elogiando sua pelugem!”

Após o susto, tudo foi resolvido com muito bom humor. Caminharam até o alto do monte perto da pracinha e de lá podiam ver tudo. Raio de Sol e Cabeça de Tomate às vezes desciam até o evento e voltavam com deliciosas refeições para a família de ratinhos. O dia terminava bem, e todos voltaram para suas casas.

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O DIA SEGUINTE

Foi um primeiro dia incrível da Feira do Pavão! O Condado em festa foi dormir tarde, e algumas pessoas passaram a noite até o sol nascer, celebrando a fartura e as celebridades com os amigos.

Mas a festa continuava, era o segundo dia do evento. Cabeça de Tomate não havia aberto a loja, queria aproveitar para apenas se divertir. Resolveu achar Raio de Sol para começarem juntos o novo dia de celebrações.

“Aí está você! Ontem era uma abelha, o que vai ser hoje, Raio de Sol?”

“Cabeça de Tomate! Eu estava te procurando. Hoje nós dois iremos vestidos de bruxos! Eu já tenho minha roupa com meu chapéu, então fiz um feitiço do DuplicaQueVisto e te fiz um chapéu igual ao meu. As roupas eu dupliquei um pouquinho maior para te servirem, espero que fiquem bem em você. O chapéu não é mágico, mas vai lhe cair muito bem! Juca está fantasiado de bode! Foi fácil. Coloquei essa barba nele, amarrei o rabo dele pra ficar menor e coloquei esses chifres feitos de galhos!”

“Eu gostei muito disso! Esse chapéu imenso é engraçado. Vou pegar um graveto torto para que eu tenha uma varinha igual a sua! Porque seu chapéu está balançando, Raio de Sol?”

“Ah, não ligue pra isso! Ele está feliz. Quer ir logo pra festa! Pelo visto ele gosta dessas coisas.”

“Vamos nos trocar e ir logo. Não quero perder a apresentação da Banda do Sr. Lorival! Eles são muito animados e prometi a ele que não iria perder!”

“Claro que sim, Raio de Sol! Vamos logo!”

Saíram então os dois, devidamente vestidos como bruxos. Ela, com sua roupa mágica original, e ele com sua cópia sem efeitos mágicos.

“Estou gostando de me vestir de bruxo, Raio de Sol! Parece que tenho poderes e posso fazer coisas. Agora te entendo. Se eu fosse um bruxo eu também iria fazer coisas para ajudar todo mundo! Não é hora de o Condado saber sobre seus poderes?”

“Ah não! As pessoas do Condado odeiam e temem as bruxas! Eu seria perseguida. Eles não acreditariam que eu estaria querendo ajudar. E além disso, eu devo saber fazer nada mais do que uma meia dúzia de feitiços. Preciso aprender melhor antes de começar a ajudar as pessoas.”

“Pois eu apoiarei! No momento certo eles vão saber e aposto que também vão apoiar! Veja, é o senhor Lorival! Parece que a banda já vai começar em breve! Vamos falar com ele!”

“Senhor Lorival! Bom dia! Como vai, Sra. Dermínia? Como prometido, cheguei cedo para ver a apresentação de sua banda!”

“Raio de Sol! Cabeça de Tomate! Como vão? Dermínia está bem. Ela está com a barraca dela vendendo doce de abóbora! Não deixem de ir lá provar alguns. Ela fez uns especiais só para você!”

“Que maravilha! Pode deixar que irei. Onde será a apresentação? Quero ficar bem posicionada para não perder nada!”

“Nos apresentaremos ao lado do chafariz esse ano. A banda cresceu muito, então ali vai ser o melhor espaço! Vamos começar em 20 minutos!”

“Então vou correr pra debaixo do pé de manga! Lá no alto é o melhor lugar pra ver tudo! Ontem estávamos lá com Sr. Ederbaldo e família dele!”

“Quem é Sr. Ederbaldo, Raio de Sol?”

“Ah! Me desculpe! É uma família que mora fora do Condado e que nunca tinha visto a Feira. Depois lhe conto mais detalhes. Boa apresentação para o senhor e para sua banda. Estarei vendo tudo! Até mais tarde!”

Subiram então para debaixo do pé de manga, para ver o show da banda. No caminho, riam da conversa com Sr. Lorival.

“Hahahah Raio de Sol! Por um minuto eu achei que você contaria a ele que Sr. Ederbaldo é um rato falante que tem uma esposa que come cenouras infinitas e quase virou um coelho! Imagine só a cara dele escutando essas coisas!”

“Pois eu quase contei mesmo! Hahaha! Um dia vou poder contar e acreditarão em mim! Veja, parece que irão atrasar um pouco. Podíamos buscar frutas para assistir a tudo aqui de cima!”

“É uma ótima ideia, Raio de Sol. Vá com Juca pegar nossas frutas, eu vou passar na loja e pegar uma cesta com mais coisas pra lanchar!”

“Combinado. Te encontro aqui! Não se demore! Eles vão atrasar, mas não muito. Não quero perder o show!”

Raio de Sol foi até às árvores de frutas ali perto, enquanto Cabeça de Tomate passava na loja. Mas ela queria as melhores frutas do bosque do Cata-Flor. Ela decidiu que se apertasse o passo, iria valer a pena ir mais longe e teria frutas mais saborosas, e chegaria à tempo da apresentação.

Mas parece que algo terrível estava para acontecer.

O castelo da escola de bruxas estava em fúria! A Feira do Pavão era uma alegria sem fim. Tanta música e risos, pessoas se divertindo, isso tudo estava contaminando as bruxas que estavam ficando furiosas.

A bruxa Verruga e a Diretora da escola estavam decididas a tomar uma iniciativa para parar com a alegria insuportável.

“O feitiço do ViraPedra! Vamos fazer todos virarem pedra, assim não poderão mais sorrir. O pântano irá invadir o Condado e seremos a maior escola de bruxas que já existiu! Poderemos espalhar toda a maldade por aí e não seremos mais amoladas com o importuno de risadas e alegrias”

“A senhora é mesmo sábia, Diretora! Irei preparar as outras bruxas. Iremos todas invadir a Feira do Pavão imediatamente. A oportunidade é única e o plano parece perfeito!”

Saíram em disparada, voando em suas vassouras, todas as bruxas. Dezenas delas em direção ao Condado. Não podia perder tempo. Seria um ataque rápido e estaria tudo completo em instantes.

Chegaram rapidamente às proximidades do Condado. Não queriam ser vistas, para que os moradores não fugissem de medo. Cada pessoa a virar pedra seria menos uma pessoa a dar risadas. Todos eram alvo.

Desceram de suas vassouras e reunidas em círculo, levantaram as mãos e olhando para as nuvens, colocaram algumas dezenas de pedrinhas no chão e gritaram juntas:

“Zimplátum! Zimplatam! Nuvem branca fica preta! Zimplátum, Zimplatar! Quem já sorriu um dia, pedra irá virar!”

O céu ficou negro. As pessoas pararam as músicas e as celebrações. O sol ficou tampado pelas nuvens escuras, e o dia parecia noite. Uma chuva molhou todo o Condado, e todas as pessoas e bichos viraram pedra.

Caindo em risadas, as bruxas estavam satisfeitas. O plano foi muito bem executado e agora o Condado estava em silêncio. De volta às suas vassouras, voltaram para o Castelo do Pântano para contar as novidades para a diretora e todas as alunas. Uma nova Ordem estaria nascendo e enfim, as bruxas iriam vencer.

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TUDO É PEDRA!

O Condado nunca havia ficado tão silencioso. Nada se movia. As pessoas e os animais haviam se transformados em pedras. Até mesmo borboletas e passarinhos estavam petrificados caídos no chão. As nuvens negras haviam deixado tudo escuro, o local estava tomado pela sombra e escuridão. Era uma tragédia.

Por sorte, Raio de Sol não foi atingida. E de longe viu as nuvens em cima do Condado, deixando tudo muito sombrio.

“Oh não! Que coisa horrível! O que são aquelas nuvens em cima do Condado? Está tudo escuro por lá! Preciso voltar!”

Chegando ao Condado, Raio de Sol ficou apavorada. Não acreditava no que via. Estavam todos parados como estátuas, feitas de pedra, imóveis, em um lugar escuro e triste. Não era mais o Condado. A Feira do Pavão foi alvo de uma grande maldição, e Raio de Sol sabia quem tinha feito isso.

“Cabeça de Tomate! Preciso encontrá-lo! Ele deve estar na loja! Tomara que esteja a salvo!”

Raio de Sol e seu cachorro Juca correram até a loja de passarinhos de madeira. Estavam na esperança que Cabeça de Tomate tivesse conseguido escapar. Ela iria precisar da ajuda dele para reverter tudo isso.

Mas suas esperanças foram em vão. Lá estava ele: parado em frente a porta da loja, prestes a colocar a chave para abrir a porta, mas totalmente imóvel em pedra.

Raio de Sol caiu no choro.

“Cabeça de Tomate! Não! Pare já com isso! Volte pra mim! Você precisa abrir a loja, precisa me ajudar com tudo isso! Não suporto te ver assim!”

Desesperada, ela pensou em maneiras de reverter tudo isso. E se ela quebrasse a camada de pedra em volta dele? Estaria machucando-o? Estaria arrancando-lhe pedaços em formato de pedras? A ideia foi rapidamente abortada.

“Não consigo, Cabeça de Tomate. É o fim! Me perdoe! Eu devia ter te chamado para o bosque. Não sou uma boa bruxa, não consigo reverter isso!”

Chorando, Raio de Sol abraçou seu companheiro, lamentando o horror dos fatos.

Mas ao colocar a cabeça em seu peito de pedra, ela escutava o coração de Cabeça de Tomate. Um choque de alegria a acertou em cheio! Havia uma esperança!

“Cabeça de Tomate!!!! Meu Cabeça de Tomate!!! Posso ouvir você aí dentro! Sei que está vivo! Isso me dá forças. Vou corrigir tudo, eu prometo. Essas bruxas terão o que merecem e você e todo o Condado voltarão ao normal! Venha, Juca. Temos muito a fazer!”

Raio de Sol foi se equipar com seu livro de feitiços e traçar um plano.

Ela iria invadir o Castelo das Bruxas e descobrir como reverter tudo isso. Na sala da Diretora tem uma biblioteca de livros de feitiços. Se existisse uma resposta, ela faria de tudo para encontrar.

O Castelo era impenetrável. As paredes poderiam saber de tudo e contar para as bruxas. Era impossível entrar lá. Mas Raio de Sol era esperta, e tinha um ótimo plano.

O calabouço era feito de pedras normais. Se ela entrasse por lá, poderia ter ajuda de Jobú e conseguir a chave da sala da Diretora. Ela poderia ensinar a sua sombra a ir até lá e pegar as informações pra ela. Era arriscado, mas era a única saída. Sem opções, ela seguiu com o plano.

Cautelosamente, se aproximou do Castelo, e escondendo-se no meio das árvores secas, conseguiu chegar à pequena janela que dava acesso ao calabouço. Com um enorme esforço, conseguiu alcançar a janela e enfim conseguiu pular para um dos corredores fedorentos e sujos do Castelo.

“Agora preciso encontrar o Jobú!”

Era fácil encontrá-lo. Ele não parava de falar sozinho, então era só seguir a voz dele. Não demorou muito e lá estava ele, parado, com seu molho de chaves em mãos, repetindo sempre as mesmas palavras “212 chaves... são 212 chaves!”

“Jobú! Que bom te ver! Preciso de sua ajuda!”

“Raio de Sol! O que faz aqui, garota? Imaginei que nunca mais iria te ver, estava feliz que você não iria pisar neste lugar horrível de novo! São 212 chaves!”

“Jobú, uma maldição terrível aconteceu! O Condado todo foi transformado em pedra pelas bruxas! Preciso que me ajude a reverter isso. Eu preciso entrar na sala da Diretora e ter acesso aos livros de feitiços. Pode me ajudar?”

Jobú ficou calado por um momento. Ele nunca havia ficado calado. Seus olhos travaram. Ele parecia pensar em alguma recordação desesperadora. A notícia de Raio de Sol lhe trouxe lembranças muito antigas.

“Raio de Sol! Não posso acreditar que fizeram o mesmo ao seu Condado!”

“O mesmo? O que está dizendo, Jobú?”

“Raio de Sol, eu vivia em uma pequena vila distante daqui. Eu era um jovem forte, ajudava com os cavalos, trabalhava com a plantação. Eu era muito bonito e cheio de vida. Meu pai era o grande mago do chapéu branco. Ele era muito forte e fazia bondade, protegendo nossa vila de tudo. Certa vez, as bruxas uniram forças e conseguiram vencê-lo. Todos foram transformados em pedra, menos eu. O chapéu do meu pai foi aprisionado aqui no calabouço. Como tortura, me entregaram todas essas chaves. Uma delas abre a porta onde está o chapéu do meu pai. A cada vez que tento abrir a porta e erro a chave, eu me transformo. Eu tentei apenas duas vezes, e olha o que me tornei. Um anão retorcido, corcunda que mal lembra das coisas. Temo que se usar a chave apenas mais uma vez e errar, eu me tornaria um monstro sem memória. Eu prefiro não arriscar. Vagamente me lembro de uma coisa ou outra e isso me mantém de certa forma feliz, mesmo que por um instante, até que eu volte a esquecer tudo. São 212 chaves, Raio de Sol. São todas iguais. Eu jamais vou conseguir! 212 chaves!”

“Pobre Jobú! Essas bruxas são mesmo asquerosas! Elas se divertem nos machucando!”

“TRINTA E SEIS!” – Gritou Jobú.

“O que disse Jobú? É esse o número? É essa a chave? A Chave trinta e seis é a certa?”

A memória de Jobú havia voltado por um instante. A conversa com Raio de Sol o fez reviver em suas lembranças o momento em que foi amaldiçoado. As bruxas lhe disseram o número da chave antes de apagarem-lhe a memória.

“Jobú, você disse o número da chave! Precisa tentar! É a chave trinta e seis! Você pode pegar o chapéu branco de seu pai!”

“Do que está falando, Raio de Sol? O que está fazendo aqui? Achei que nunca mais iria te rever! Sabe se teremos sopa hoje? São 212 chaves!”

Pobre Jobú. A maldição estava forte demais. Ele mal se lembrava de coisas que havia feito minutos atrás.

“Escute Jobú, você precisa usar a chave 36, tudo bem? Tem um presente lá pra você! Quero que use ela! Não tenha medo!”

Jobú não sabia sobre o que Raio de Sol estava falando. Ele já era quase um monstro e não raciocinava direito. Sua comunicação era limitada e seus pensamentos eram apenas para as chaves. Ele sabia que nelas havia uma resposta que procurava, mas não lembrava o que era. Achou que era apenas mais uma solicitação de almoxarifado, e que Raio de Sol precisava de pegar algo. Obedecendo, a conduziu até a porta dos chapéus e achou a chave 36. “Bom, vejamos... agora preciso girar ela 3 vezes e... oh!!!!!!”

Lá estava! O belo chapéu branco de seu pai, o grande mago! A memória voltou. Ainda em estado retorcido de seu corpo, mas com toda sua memória recuperada, Jobú ajoelhou-se em lágrimas.

“Raio de Sol! Você me ajudou! É minha única alegria, tudo que restou de meu pai. É bem verdade que eu não seja um mago, e o chapéu só tem poderes na cabeça dele, que já não existe mais. Mas lhe agradeço. Recuperou minha memória e agora não preciso mais vagar por esse castelo! Irei te ajudar. A chave da sala da Diretora é a 67. Por sorte, elas estão reunidas no Jardim Negro, comemorando o que mal que causaram a seu Condado. O livro que procura é o volume 6 da Edição dos Corvos. Mas não pode ir até lá. As paredes saberiam e contariam para elas. Seria seu fim! É tudo que posso contribuir.”

“Jobú, não se preocupe. Minha sombra cuidará de tudo. Ela pode carregar alguns objetos, e confio muito nela. Ela irá pegar o livro pra mim e tudo estará resolvido. Quero que saia daqui e vá para o mais longe que puder. Se eu nunca mais te ver, guardarei você em minhas lembranças. Seja forte. Você não é um monstro!”

Jobú não perdeu tempo. Abraçou sua nova amiga se despedindo e agarrou o chapéu de seu pai. Pulou a janela e fugiu pelo pântano, correndo sem olhar para trás.

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A VINGANÇA

Raio de Sol estava com medo. Seria uma missão muito difícil. Se algo desse errado, as bruxas poderiam capturá-la e lhe fazer o mesmo que fizeram à Jobú. Era uma aposta muito alta a se fazer, mas ela não conseguira voltar a ser feliz com seu Condado em pedras e Cabeça de Tomate naquela situação. Ela se lembrava do som de seu coração batendo e se enchia de coragem.

“Está decidido! É agora!”

Ela então instruiu sua sombra. Disse para ela tomar cuidado e a alertou da importância de sua missão. Ela esperaria a sombra ali mesmo, no calabouço, e esperaria pelo livro. A sombra aprendera a ser obediente depois do susto que levou da última vez que foi brincar com sua bruxinha. A amava acima de tudo e queria ajudar. Com cautela, pegou as chaves e sorrateiramente foi se esgueirando pelas frestas do castelo até chegar à sala da Diretora.

No Jardim Negro, as celebrações não tinham fim. As bruxas faziam planos para a ampliação do pântano e prometiam decorar seu novo jardim com as estátuas de pedra das pessoas do Condado. Se divertiam com seus pensamentos de maldade.

Enquanto isso, a sombra progredia: alcançou a sala da diretoria e a chave funcionou. Agora bastava achar o Livro 6 da Edição dos Corvos. A estante tinha mais de 50 metros de altura. As bruxas não usavam escadas, pois tinham vassouras para voar e tinha acesso a qualquer prateleira com muita facilidade. Eram milhares de livros. Sequer estavam em ordem alfabética. Não havia nenhuma mínima organização na ordem dos livros. As bruxas não suportavam as coisas em ordem, e quando precisavam de algum livro, apenas o chamavam pelo nome. Não era necessário organizar, e de certa forma, isso mantinha uma segurança para o acesso de algum visitante inesperado.

A sombra havia herdado de sua dona a persistência. Ela não desistia fácil. E com muita procura, enfim encontrou. O Volume 6, Edição dos Corvos. Largou as chaves pra lá e carregando o livro com muito cuidado, conseguiu voltar em segurança para Raio de Sol.

“Eu sabia que você conseguiria! Uma bela sombra você! Quando acabarmos isso, prometo passar o dia todo brincando de esconde-esconde contigo!”

Raio de Sol então passou pela janela e saiu do Castelo. Ficou à uma distância segura, para que pudesse verificar o livro sem ser vista e finalmente achou o que procurava.

“Feitiço do QuebraPedregulho, página 6.201! É isso. Tem que ser esse!”

Para cada 20 pessoas, utilize 5 pedras no chão próximo aos pés da(s) bruxa(s) que evoca(m) o feitiço. Espere por uma boa nuvem que faça a chuva maléfica e apontando para ela repita alto: “ZImplátum! Zimplatam! Nuvem preta fica branca! Zimplátum, Zimplatar! Quem já foi pedra, sorrisos volta a dar!

“Perfeito! É isso mesmo! Com certeza é esse o feitiço. Vejamos... 5 pedras amaldiçoam 20 pessoas. Minha vingança será épica. Usarei centenas de pedras. Rápido, não temos tempo a perder. Me ajude a coletar o máximo de pedrinhas e as coloque aqui!”

Raio de Sol instruiu sua sombra a ajudá-la com a coleta de pedras e determinou um círculo no chão onde elas deveriam ser colocadas. Em um instante, elas tinham uma pilha de pedras 3 vezes mais alta que a bruxinha.

“É agora! Espero que não falhe!”

Raio de Sol fez os procedimentos do feitiço, e apontando para a nuvem que estava acima do castelo, ordenou que a magia acontecesse. O céu negro do pântano ficou limpo. Uma chuva caiu sobre o castelo, que feito de pedras, sucumbiu ao chão. As bruxas que estavam no Jardim Negro não acreditavam naquilo. Correram para salvar os livros da biblioteca, em meio às ruínas de seu castelo que agora era apenas uma pilha de entulhos.

“Funcionou! Ele quebra as pedras amaldiçoadas! Essas bruxas apenas começaram a ter o que merecem. Eu voltarei para acabar com elas de uma vez por todas, mas por hora, preciso ajudar o Cabeça de Tomate e as pessoas do Condado!”

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DE VOLTA AO CONDADO

Correndo, Raio de Sol estava com o pesado livro de feitiços debaixo dos braços. Finalmente conseguiu voltar ao Condado.

As nuvens negras e toda a tristeza haviam de ir embora. Sem perder tempo, repetiu os procedimentos. Reuniu as pedrinhas, e com os braços para cima, apontou para a nuvem negra e disse as palavras mágicas.

Estava funcionando. As nuvens ficaram brancas e começou a chover uma linda chuva que era invadida pelo sol, que perfurava as nuvens limpas. As pessoas feitas em pedra estavam voltando uma a uma ao normal, e enfim, todos se livraram da maldição.

Assustados, ainda sem entender exatamente o que aconteceu, viram Raio de Sol exausta, que havia caído no chão já sem energias, mas feliz por ter conseguido.

“A bruxa! A menina é a bruxa! A culpa é dela! Devemos pegá-la para que não cause mais mal nenhum ao Condado!”

“Raio de Sol! Não acredito que você possa brincar assim com a gente! Gostávamos de você!”

“Vamos prender ela na prisão!”

“Vamos expulsar ela do Condado!”

Estavam todos revoltados e alarmados, em fúria com a pequena bruxinha, culpando-a dos males causados.

Abrindo um círculo em volta da exausta garota, todos começaram a xingá-la, prestes a capturá-la. Cabeça de Tomate, que havia retornado à sua forma normal, invadiu o círculo, e de pé ao lado de sua bruxinha, a defendeu.

“Seus ingratos! Não vêem que foi ela quem nos salvou? Ela se arriscou e agora estamos salvos. Sim, ela usa roupas e chapéu de bruxa! Mas não se enganem! Ela ajuda a todos. Vocês ainda não estavam prontos para conhecer as magias dela, e ela ainda estava se preparando para contar para vocês. O que ela mais temia está acontecendo. Estão contra ela.”

Ficaram todos em silêncio por um instante. Até que o Sr. Lorival intercedeu:

“É verdade o que o jovem diz. Raio de Sol jamais nos causaria mal algum, ela é uma menina boa. E vagamente me lembro que fomos invadidos por dezenas de bruxas em suas vassouras quando a banda estava prestes a começar a tocar. Isso não é obra dela. E aqui estamos nós. Não somos mais feitos de pedra. Isso me diz que ela reverteu a maldição e nos ajudou. Temos que ser gratos por ter uma bruxa em nosso Condado que pratica magia do bem!”

Ainda sem entender, mas retomando pouco a pouco a memória, os habitantes do Condado foram lembrando dos fatos e reconheceram que a versão de Sr. Lorival era condizente com os fatos.

Decidiram cuidar de Raio de Sol e deixá-la descansar, dormir um pouco para recuperar a energia. A Feira do Pavão não poderia continuar, devido ao susto. Os habitantes foram limpar a cidade para que tudo voltasse ao normal em suas rotinas.

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Ao fim do dia, Raio de Sol estava recuperada. Na loja de passarinhos de madeira, tomava um bom café com biscoitos ao lado de Cabeça de Tomate, que ouvia os detalhes de tudo. Ela contou sobre a maldição lançada à Jobú e como sua sombra a ajudou a pegar o livro de feitiços. Contou também que ela tinha conseguido destruir o castelo das bruxas.

“Raio de Sol, você é mesmo muito corajosa. Se arriscou demais. Enquanto eu era pedra, não conseguia falar, mas podia te escutar. Eu não conseguia ver quem me abraçava, mas sabia que era você. Eu tinha certeza que você voltaria com uma solução, mas dentro de minha cápsula de pedra, eu temia muito por sua segurança e chorava por não poder te defender. Fico muito feliz que esteja segura e que tenha conseguido reverter tudo isso! Você é realmente incrível!”

“Eu ainda tenho medo. As bruxas não irão descansar. É bem provável que estejam reconstruindo o castelo. Isso irá as deter pelos próximos anos, mas sei que voltarão. Pelo menos agora as pessoas acreditam em mim e tenho um grande livro de feitiços para estudar. É verdade que elas são mais poderosas e possuem milhares de livros à minha frente, são mais experientes e estão com raiva de mim. Mas eu irei praticar e vou ficar muito boa nisso. Tive medo de perder o Condado, você, nossos encontros e os cafés na loja de passarinhos de madeira. Precisamos nos arriscar menos. A alegria das pessoas incomoda quem tem pensamentos ruins e nem sempre é bom lançarmos ao vento nossa alegria. Mas não devemos deixar de comemorar, porque merecemos ser felizes. Devemos ter cuidado com quem escuta nossos risos e nos proteger para ficarmos seguros.”

A paz estava de volta. O Condado, ainda um pouco assustado com tudo, tinha voltado à sua rotina normal. Eles aprenderam a não julgar quem realmente lhes causa mal e passaram a dar total confiança à Raio de Sol, certos de que ela iria os ajudar e protegê-los.

Os próximos dias seriam marcados por novos sorrisos, esperança e alegria. Raio de Sol estudava o seu novo livro e começava a criar uma versão de seus próprios exemplares de estudo, com feitiços que ela mesmo havia adaptado de maldades para benefícios. Enfim ela havia se tornado a bruxinha que queria ser, e com a confiança das pessoas, estava ainda mais forte à aprender todos os dias, com a intenção de ajudar a todos em tudo que precisassem.